sábado, 1 de agosto de 2009

[capítulo 2 - negação]

o socorrista/segurança ed me conduziu até a casa 3, e pelo caminho fui dando oi alegremente pra todos que eu via. mas quando eu cheguei lá, a alegria passou: era uma casa de confinamento. tétrica.

aquela noite era o plantão dos enfermeiros m e angélica. "nome de anjo", comentei. daí ela me revistou.
tive que mostrar os seios e agachar sem calcinha sobre um espelho. tipo prisão mesmo.
mas eu não tava nem aí.

dos internos, conheci primeiro dois rapazes: rb e al. um tinha transtorno obsessivo compulsivo e o outro não falava coisa com coisa; mas me acolheram. super atenciosos.

mas foi quando conheci minhas companheiras de quarto que eu me desesperei: acl, que dizia ser bipolar, e ry, completamente insana. fiquei com medo de dormir no mesmo quarto que elas e, por mais que o m insistisse que nada aconteceria comigo, peguei um dos cobertores e me deitei no chão do corredor.

me disseram que não podia, mas, como já disse antes, eu não tava nem aí.
só que agora chorando muito e dizendo que "tinham me jogado nessa clínica de merda só com a roupa do corpo".

acho que se compadeceram de mim e me deram um pequeno 'kit', que continha: um pacote de biscoitos maizena, uma escovinha de dentes de viagem, uma mini pasta de dente e um sabonete. os biscoitos eu acabei dando pra alguém; os outros eu usei até o fim.

depois de muito choramingar, o m pegou um dos colchões do quarto das mulheres e um travesseiro. me deram um remédio para dormir macerado; sem antes, é claro, ameaçar chamar o segurança e me dar uma injeção. "pode dar", eu gritava oferecendo o braço.
dormi feito uma pedra.

quando acordei, vi que alguns caras saíram e em seguida um dos enfermeiros trancou a porta.
"por que eles podem sair e eu não?", protestei.
"porque eles têm passe livre".
"por quê?!" - essa pergunta ficou sem resposta. (ou minha memória seletiva me impede de lembrar.)

chorei do café da manhã até o almoço. nesse meio tempo, conheci minha terapeuta, ñ. "minha companheira de all star!", ela disse. eu quase rosnei pra ela.

acredito que foi ela quem me liberou para sair à tarde. e eu alheia a tudo e a todos, só fazia chorar. nem me lembro direito dessa parte; tudo era muito estranho e surreal.

calculo que foi na hora do lanche que deixaram uma mala pra mim em cima da muretinha em frente à porta do refeitório. quando eu vinha saindo, um dos socorristas me avisou: "deixaram isso aí pra você". reconheci na hora.
sentei-me do lado dela e desatei a chorar abraçada a uma mala.

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