domingo, 2 de agosto de 2009

"que ninguém se engane; só se consegue a simplicidade através de muito trabalho."

(clarice lispector)

sábado, 1 de agosto de 2009

[capítulo 4 - mudança]

não mencionei ainda, mas me recusava a tomar banho enquanto estivesse na casa 3. o banheiro - além de inacreditavelmente sujo - não tinha espelho e nem tranca na porta. mas o que mais me enojava era o fato de ter que dividir o mesmo banheiro com aquelas duas aberrações.
(olha quem fala.)

passei cinco dias na casa 3. numa sexta-feira fui pra casa 2, a casa das mulheres.
acho que foram levados em consideração alguns fatores, tais como: eu não ser de fato uma suicida; eu ter começado a socializar com os outros internos; e o banho que eu tomei no último dia.

para tal, tive que dar meu jeito: levei uma cadeira para dentro do banheiro, que serviu tanto para travar a porta como para colocar todas as coisinhas em cima; shampoo, condicionador, aquele sabonete que foi finalmente aberto e etc.



e tomei banho de chinelo, é claro.

[capítulo 3 - aceitação]

então alguém veio falar comigo. era um cara de 40 anos. r.
"tudo vai ficar bem", ele disse.

olhei pra ele com cara de nojo, mas acordei pra realidade.



ele pegou a minha mala e foi comigo até a casa 3. não me lembro muito bem sobre o que conversamos, mas provavelmente nos apresentamos e etc. me lembro de ter-lhe dito: "não quero criar vínculos; não pretendo ficar aqui por muito tempo." - e foi uma das coisas mais idiotas que já falei, e hoje rio de mim mesma por isso.

chegando lá, eu abri a mala pra ver o que tinha dentro; tirei o lençol, o cobertor e o travesseiro.
e ele fez a minha cama.

"você gosta de ler?", e eu disse que sim. ele me trouxe umas revistas e uma caixinha com alguns chocolates e alguns papéis de chocolates já comidos.

[capítulo 2 - negação]

o socorrista/segurança ed me conduziu até a casa 3, e pelo caminho fui dando oi alegremente pra todos que eu via. mas quando eu cheguei lá, a alegria passou: era uma casa de confinamento. tétrica.

aquela noite era o plantão dos enfermeiros m e angélica. "nome de anjo", comentei. daí ela me revistou.
tive que mostrar os seios e agachar sem calcinha sobre um espelho. tipo prisão mesmo.
mas eu não tava nem aí.

dos internos, conheci primeiro dois rapazes: rb e al. um tinha transtorno obsessivo compulsivo e o outro não falava coisa com coisa; mas me acolheram. super atenciosos.

mas foi quando conheci minhas companheiras de quarto que eu me desesperei: acl, que dizia ser bipolar, e ry, completamente insana. fiquei com medo de dormir no mesmo quarto que elas e, por mais que o m insistisse que nada aconteceria comigo, peguei um dos cobertores e me deitei no chão do corredor.

me disseram que não podia, mas, como já disse antes, eu não tava nem aí.
só que agora chorando muito e dizendo que "tinham me jogado nessa clínica de merda só com a roupa do corpo".

acho que se compadeceram de mim e me deram um pequeno 'kit', que continha: um pacote de biscoitos maizena, uma escovinha de dentes de viagem, uma mini pasta de dente e um sabonete. os biscoitos eu acabei dando pra alguém; os outros eu usei até o fim.

depois de muito choramingar, o m pegou um dos colchões do quarto das mulheres e um travesseiro. me deram um remédio para dormir macerado; sem antes, é claro, ameaçar chamar o segurança e me dar uma injeção. "pode dar", eu gritava oferecendo o braço.
dormi feito uma pedra.

quando acordei, vi que alguns caras saíram e em seguida um dos enfermeiros trancou a porta.
"por que eles podem sair e eu não?", protestei.
"porque eles têm passe livre".
"por quê?!" - essa pergunta ficou sem resposta. (ou minha memória seletiva me impede de lembrar.)

chorei do café da manhã até o almoço. nesse meio tempo, conheci minha terapeuta, ñ. "minha companheira de all star!", ela disse. eu quase rosnei pra ela.

acredito que foi ela quem me liberou para sair à tarde. e eu alheia a tudo e a todos, só fazia chorar. nem me lembro direito dessa parte; tudo era muito estranho e surreal.

calculo que foi na hora do lanche que deixaram uma mala pra mim em cima da muretinha em frente à porta do refeitório. quando eu vinha saindo, um dos socorristas me avisou: "deixaram isso aí pra você". reconheci na hora.
sentei-me do lado dela e desatei a chorar abraçada a uma mala.

diário de internação. [capítulo1]

fui internada na clínica psiquiátrica e de reabilitação C na noite do dia 15 de junho de 2009 por causa da minha suposta tentativa de suicídio feita na noite anterior por volta das 22:30, que constituiu na ingestão de uma caixa quase inteira de lexotan com uma caneca de amarula, complementados por uma cartela de benflogin.

quem me encontrou foi a ln, lá pelas duas da tarde. em seguida contei a ela e à ac onde eu havia escondido as cartelas vazias. me lembro da ln se ajoelhar ao lado da minha mesa de cabeceira, colocar a mão direita sobre o meu peito e rezar. depois trocou a minha roupa.

então, cada uma foi tomar seu banho e depois me conduziram até a garagem. entrei pela porta de trás do carro do meu pai (ele tava viajando a trabalho) e deitei a cabeça no colo da ln.

me levaram as duas ao hospital H para uma lavagem gastrointestinal através da via nasal esquerda. duas enfermeiras me assistiram; uma era pentelha, a outra simpática. tiveram que me segurar, pois eu me debatia violentamente.

me acalmei, e me deixaram lá com uma cumadre para que eu pudesse vomitar caso me desse ânsia. não sei quanto tempo fiquei lá deitada, mas me lembro de ter passado um bom tempo olhando pra um cara entre umas cortinas, tentando estabelecer alguma comunicação.

depois de algum tempo e algumas tentativas de fuga, chegou uma moça com aquele negócio no pescoço e ficou no leito ao lado. perguntei o que havia acontecido com ela, mas não me lembro da resposta. comentei que devia ser estranho conversar com alguém que tivesse uma sonda enfiada no nariz, e perguntei se ela também via as luzes piscando e se mexendo.
ela disse que não.

em algum momento, ac veio pedir meu consentimento quanto a me internar numa clínica.
eu disse que sim.

em algum outro momento, anterior, uma médica havia a alertado disso. (na minha frente.)

saí do hospital numa cadeira de rodas e lá fora estavam c, z e y.
c veio me abraçar chorando e me disse "não faz isso comigo". (aí eu já estava deitada numa maca, mas não sei como fui parar lá.) z e y vieram me abraçar e me dizer coisas também, mas não lembro o que foram.

entrei numa ambulância pela primeira vez; achei divertido.
lá estavam dois paramédicos: o vlad, e do outro não me recordo o nome. viemos conversando por todo o trajeto. muito simpáticos e agradáveis. deixei cair o tic-tac que carregava no pulso, preso no elástico de cabelo. pedi ao sem nome que pegasse pra mim; disse que era muito importante.

ao sair da ambulância, me lembro de ter abraçado um dos dois, ou os dois, não sei. entrei na clínica também numa cadeira de rodas. estavam presentes: c, z, y, ld e ac.

tive uma conversa com uma senhora que falava com tati-bitati, ou sei lá como se escreve isso. sei que me irrita, mas na hora nem me incomodei. (claro, depois de mais de doze horas com lexotan no sangue.)

eu assinei minha própria internação.